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Caminhos resultados de união de "processos"...

Caminhos resultados de união de "processos"...

Depois de algum tempo, hoje tem histórias de fotografia.  Quem “fala” hoje é uma foto realizada pela madrugada na praia de Camboinhas em Niterói (RJ).  Aparentemente, apenas uma foto noturna feita no litoral.

Estava eu sentada na praia com minha máquina e tripé tentando fotografar as estrelas… várias e várias vezes pra nada.  Nesse dia o meu objetivo principal não teve bons resultados. A minha única tentativa feliz foi a foto da praia cheia de “caminhos” (feitos pelos carros de limpeza da areia), que guiam os olhos para a Baía de Guanabara (Pão de Açúcar ao fundo).

Na época fotografia era algo bem caro (ainda não deixou de ser), adicionado a dificuldade de encontrar equipamentos no Brasil e sem a facilidade da internet (e-commerce), entre outros motivos da nossa modernidade. O que isso tem a ver com a foto? Vamos lá: ela tinha um problema de cor, que hoje é corrigido facilmente no white balance. Em tempos passados, essas correções eram realizadas através dos filtros, e  óbvio que precisava de um que eu não tinha: FL-D*.

Filtro FL-D

Filtro FL-D

Fotografia original sem correção de cor. Foto: Bruna Prado

Fotografia original sem correção de cor. Foto: Bruna Prado

Aqueles holofotes à direita eram de luzes fluorescentes, conseqüentemente a foto tinha tons totalmente esverdeados causados pela minha fonte de luz principal. Foi ai que veio o elo entre o processo tradicional analógico e o digital. Para compensar a falta do filtro FL-D, revelei a foto sem correção e busquei no photoshop um recurso que eu pudesse me aproximar do tipo de correção de um minilab. Assim eu chegaria exatamente ao tipo de compensação de cor que seria necessário aplicar no material.

Encontrei no software o recurso “Variations”, localizado no menu “Image” / Adjustments.  Era relativamente paracido com a interface que tinha disponível no minilab Noritsu QSS-2301. Eu compensava para mais ou para menos as cores e a densidade (exposição) da foto.  Joguei dois pontos de magenta (eliminando o verde)  e  um ponto  de vermelho (eliminando de forma suave o azul e esquentando os tons)  para alcançar o resultado que pretendia.

Caminho do recurso de correção de cor e densidade (exposição) do Photoshop: Variations.

Caminho do recurso de correção de cor e densidade (exposição) do Photoshop: Variations.

Interface do recurso "Variations" do Photoshop

Interface do recurso "Variations" do Photoshop

A “História” contada por esta foto, relata a primeira vez que juntava dois processos da fotografia a meu favor. Unindo o laboratório analógico com o digital.

* FLB/FLD: Filtro usado para filmagens/fotografia em lugares iluminados com luz fluorescente. Reduz o excesso de verde, corrigindo perfeitamente a luz e obtendo agradáveis tons de pele. Indispensável para fotografias em escritórios, cozinhas, academias de ginástica, shopping, fábricas, etc. Pode ser usado como efeito dramatizando e saturando as cores do nascer e o do por do sol. O FLB é usado para filmes tungstênio e o FLD para filmes daylight. É necessário compensar um stop.

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Para contar a “História” da foto que entrará no próximo post, precisarei voltar ao “Tempo Passado” em um período anterior ao post “Um fim entre o mar e o progresso…”. Um dos momentos “chave” na minha trajetória profissional e fotográfica:

A fotografia entrou na vida por definitivo, através da minha trajetória profissional como design e publicitária. Em busca de horizontes profissionais surgiu um desafio. Estaria envolvida com a instalação e desenvolvimento de serviços digitais para, na época, o maior laboratório fotográfico da América Latina: Deplá.

Photoshop 5.0

Parte das minhas referências: Photoshop 5.0

O Laboratório central localizava-se no bairro Fonseca, em Niterói. Cheguei junto com o primeiro Mini-lab Digital adquirido por uma empresa em todo Rio de Janeiro. Vivíamos ausência de referências e treinamentos na cidade e no país, no que se referia a implantação dos serviços ligados a fotografia digital e ajustes dos próprios equipamentos. Recordo-me bem da primeira ferramenta e referência que me deram: o manual original do Adobe Photoshop 5.0. Teria a partir daí, mais 5 dias para entender o programa, o equipamento e para finalizar testes com um computador que era ligado ao Mini-lab. Precisava alcançar a qualidade necessária para atender todas as lojas da rede no estado do Rio e as lojas de Juiz de Fora e Belo Horizonte. Nada mal para que buscava novos desafios, não?

Minilab Noristu utilizado no laboratório.

Minilab Noristu utilizado no laboratório, no qual meu computador de trabalho ficava ligado.

Trabalhava em um computador que ficava ligado ao Mini-lab, onde executava todos os serviços digitais (reprodução de foto por processo digital, restauração de fotografia, além de cuidar do desenvolvimento e qualidade desse setor), e no horário determinado pela produção do laboratório, mandava “imprimir” os serviços. O Mini-lab atendia a empresa na impressão de serviços digitais, dava saída dos serviços de filmes APS (uma novidade recente na época) para toda a rede e de serviços de impressão, além de fazer cópias com entregas rápidas (1 hora para o bairro Fonseca e 24hs para toda a rede De Plá) até o tamanho 30×45. Meu primeiro problema: tempo para executar e imprimir dentro de uma prestadora de serviço de grande escala. O segundo? Por ser uma tecnologia nova, acabei me encontrando com todos os “bugs” que alguém possa imaginar, no meio de toda essa produção de serviços. Literalmente, dentro daquele laboratório, eu alimentava meus olhos com fotografias de todos os gêneros e gostos.

Interface do Adobe Photoshop 5.0

Interface do Adobe Photoshop 5.0

No meio dessas vivências, conheci a mestra Bebel. Uma pessoa simples e nobre como ser humano, que trabalhava com a documentação fotográfica e pesquisa da cultura indígena brasileira e com a implantação do Espaço e ações culturais da empresa. Não demorou a iniciarmos um trabalho em parceria, onde eu cuidava do design de seus materiais. Nasceu ai uma grande amizade e a oportunidade de aprender com ela a escrever com luz: fotografar.

Enfim… Estava eu vivendo diretamente no período tradicional da fotografia, os filmes/película; e a chegada do que poderia ser o futuro dela, o novo: a fotografia digital.

Mãos de Pescador - Pescadores da antiga colônia de pesca de Camboinhas - Niterói / RJ

Mãos de Pescador - Pescadores da antiga colônia de pesca de Camboinhas - Niterói / RJ

Antes de seguir as “Histórias de Fotografias”, resolvi dar uma passadinha rápida no espaço de tempo PRESENTE. Pode ser que no decorrer desse “Resgate Fotográfico” eu faça pequenas viagens rápidas em espaços de tempo diferentes: presente, futuros…

Pescador na puxada de rede - Pescadores da antiga colônia de pesca de Camboinhas - Niterói / RJ

Pescador na puxada de rede - Pescadores da antiga colônia de pesca de Camboinhas - Niterói / RJ

Recebi notícias sobre os rumos da região onde existia a Colônia de Pescadores de Camboinhas. Meus amigos de fotografia Hilton Lebarbenchon e Bárbara Copque informaram que: o local onde existia a antiga aldeia de pescadores hoje é habitada por uma aldeia indígena, que já sofreu inclusive uma tentativa de incêndio.  A região é um sítio arqueológico.

Essas são as vantagens de ter um “diário” na internet e viver em um mundo globalizado: a informação se propaga. E nesse lema, as fotografias seguem contando suas histórias…

Antiga colônia de pescadores de Camboinhas - Niterói / RJ

Pescadores da antiga colônia de pesca de Camboinhas - Niterói / RJ

Depois de muito tempo, resolvi tirar do “baú” fotos do meu início na fotografia. Saudades, resgate, enfim… faço questão de não me esquecer de onde vim e como.

Bebel.

Grande mestra e amiga Bebel

Em meados de 1999/2000, tive as primeiras “aulas” fotográficas com minha mestra Isabel Plá. Recordo bem, de como era diferente a proposta de ensino dela. Ficávamos horas em livrarias e em seu acervo pessoal, folheando livros  de grandes mestres famosos e anônimos.  Para cada tema e fotógrafo, eu era questionada quanto ao sentimento que tinha em relação ao que eu via. Alegria, sofrimento, angústia, coragem… eu precisava “sentir” as fotos.  Antes de entender e aprender a criar uma foto, tive que primeiro conhecer meus sentimentos em relação aos diversos mundos que observava.

Logo vieram as aulas práticas. Sem máquina ou qualquer outro tipo de equipamento, passei a observar a luz.  Meu dever de casa, muitas vezes foi acordar às 4 horas da manhã, para sentar em frente ao mar e analisar a mudança de luz. E isso se repetiu em diversos horários.

Na fase seguinte, foi adicionado o equipamento fotográfico: a caixa preta era uma Canon EOS 3000 junto com vários rolos de negativo.  Passei então a aplicar tudo que tinha observado, anotando  frame a frame o que fazia para depois  estudar os resultados e comparações.  Conheci então, sem muita teoria, o que eram as tais aberturas e velocidade. Teoria pra mim era um bicho estranho, vivia mais do que nunca o olhar e a alfabetização visual.

pescadores da colônia Camboinhas/ Niterói.

Puxada de rede: pescadores da colônia Camboinhas/ Niterói.

A minha primeira aula prática externa foi realizada na praia de Camboinhas. Por lá, todas as madrugadas até ao amanhecer, pescadores de uma colônia local, mantinham seus rituais de puxada de redes. Algumas daquelas cenas até hoje me voltam a memória. Homens, filhos de gerações passadas que repetiam aquelas atividades como meio de sobrevivência e de forma respeitosa e harmônica com a natureza.

Diante daquelas cenas,  entendi de fato que a fotografia me premitia aproximar daquilo que ainda hoje é meu foco principal: vivências. A descoberta de novas realidades, do nosso povo, da  nossa cultura e de nossas raizes.

Pescadores da colônia Camboinhas/ Niterói.

Pescadores guardando as redes pesca - Antiga Colônia de pesca de Camboinhas/ Niterói.

Entre fotos e prosas, eles comentaram que as construções de empreendimentos imobiliários na região, ou melhor, o “progresso”, já colocava seriamente em risco aquelas atividades de pesca e o futuro da colônia. Por obra e desencontros da vida e do destino, não voltei mais ao local. Me restou a pergunta:  para onde teria trilhado o futuro daquele povo?

Depois de alguns anos, descobri que aquilo que registrei foi apagado pelo “progresso”. Infelizmente essas cenas não serão mais repetidas! O que ficam são fotografias que contam histórias….