Antiga colônia de pescadores de Camboinhas - Niterói / RJ

Pescadores da antiga colônia de pesca de Camboinhas - Niterói / RJ

Depois de muito tempo, resolvi tirar do “baú” fotos do meu início na fotografia. Saudades, resgate, enfim… faço questão de não me esquecer de onde vim e como.

Bebel.

Grande mestra e amiga Bebel

Em meados de 1999/2000, tive as primeiras “aulas” fotográficas com minha mestra Isabel Plá. Recordo bem, de como era diferente a proposta de ensino dela. Ficávamos horas em livrarias e em seu acervo pessoal, folheando livros  de grandes mestres famosos e anônimos.  Para cada tema e fotógrafo, eu era questionada quanto ao sentimento que tinha em relação ao que eu via. Alegria, sofrimento, angústia, coragem… eu precisava “sentir” as fotos.  Antes de entender e aprender a criar uma foto, tive que primeiro conhecer meus sentimentos em relação aos diversos mundos que observava.

Logo vieram as aulas práticas. Sem máquina ou qualquer outro tipo de equipamento, passei a observar a luz.  Meu dever de casa, muitas vezes foi acordar às 4 horas da manhã, para sentar em frente ao mar e analisar a mudança de luz. E isso se repetiu em diversos horários.

Na fase seguinte, foi adicionado o equipamento fotográfico: a caixa preta era uma Canon EOS 3000 junto com vários rolos de negativo.  Passei então a aplicar tudo que tinha observado, anotando  frame a frame o que fazia para depois  estudar os resultados e comparações.  Conheci então, sem muita teoria, o que eram as tais aberturas e velocidade. Teoria pra mim era um bicho estranho, vivia mais do que nunca o olhar e a alfabetização visual.

pescadores da colônia Camboinhas/ Niterói.

Puxada de rede: pescadores da colônia Camboinhas/ Niterói.

A minha primeira aula prática externa foi realizada na praia de Camboinhas. Por lá, todas as madrugadas até ao amanhecer, pescadores de uma colônia local, mantinham seus rituais de puxada de redes. Algumas daquelas cenas até hoje me voltam a memória. Homens, filhos de gerações passadas que repetiam aquelas atividades como meio de sobrevivência e de forma respeitosa e harmônica com a natureza.

Diante daquelas cenas,  entendi de fato que a fotografia me premitia aproximar daquilo que ainda hoje é meu foco principal: vivências. A descoberta de novas realidades, do nosso povo, da  nossa cultura e de nossas raizes.

Pescadores da colônia Camboinhas/ Niterói.

Pescadores guardando as redes pesca - Antiga Colônia de pesca de Camboinhas/ Niterói.

Entre fotos e prosas, eles comentaram que as construções de empreendimentos imobiliários na região, ou melhor, o “progresso”, já colocava seriamente em risco aquelas atividades de pesca e o futuro da colônia. Por obra e desencontros da vida e do destino, não voltei mais ao local. Me restou a pergunta:  para onde teria trilhado o futuro daquele povo?

Depois de alguns anos, descobri que aquilo que registrei foi apagado pelo “progresso”. Infelizmente essas cenas não serão mais repetidas! O que ficam são fotografias que contam histórias….

5 Comentários

  1. Oi Brunaaaa !!
    Adorei o blog !!

    Sempre que puder dou uma passadinha aqui !! ADOREI !!

    Bjos

  2. Bruna, que coisa linda.
    Adorei não só as fotos, mas principalmente o texto e a maneira como você estudou fotografia com sua mestre.
    Queria conhecer alguém que me ensinasse assim…mas isso tinha que ter sido lá no início…Enfim, agora entendo porque suas fotos são tão líricas, tão lindas, tão inspiradas. Vc desenvolveu o olhar, a sensibilidade, antes da técnica. Sensibilidade é tudo. Técnica, ao meu ver, é detalhe que se aprende rápido. (se bem que exatamente por isso eu acho meio chato e não aprendo heehhe)

    Um beijo
    Bárbara

  3. Que delícia acompanhar este seu texto Bruna. Mais ainda por sentir um pouco do seu aprendizado fotográfico e como um mero aprendiz do assunto, acho que essa forma de aprender o “olhar fotográfico” deveria ser repassado a todos, pois é o condicionamento do “apreciar a cena” é que garante belas fotos e composições harmônicas.
    Infelizmente não tive um mestre a quem me espelhar. Sem querer ofender meus conterrâneos, nunca conheci por essas bandas uma pessoa que fotografasse por paixão e devoção. Dentre estes, encontrei alguns fotógrafos medíocres, que apenas por portar uma câmera SLR e um flash, já se diziam fotógrafos, sendo que nem mesmo seus equipamentos sabiam direito manusear. Quando estava no começo, perguntava para algum deles como eles fotografavam com flash por exemplo e recebia a resposta: “A moleque, coloca 1/60, f5.6 e faz a foto de 2 a 3 metros do assunto”. =O
    Eu sempre questionei essa forma de “receita pronta do bolo”. Achava estranho até começar a fazer meus próprios experimentos e buscar conteúdo, posteriormente com a força do advento da web.
    Só fui começar a analisar mais as cenas com o passar do tempo, pois cheguei a me questionar algumas vezes sobre o motivo de estar fazendo determinada foto. Com o tempo e um pouco de estudo passamos a ficar mais criteriosos e buscar nos clicks um algo a mais do que um “simples registro”. É nessas horas, com o sentimento aflorado que passamos a sentir (ou pelo menos tentamos) o momento único. Ele determina a emoção contida na linguagem que a fotografia expressa. Tenho tentado buscar um pouco disso, mesmo que não seja fotografando pessoas e sim elementos que nos remetam a um passado interessante de ser revisitado.

    Não sabia que você tinha blog. Fiquei muito feliz em ver um texto tão bom, recheado de imagens melhores ainda.
    Parabéns.
    Vou adicionar um link do seu blog no meu.
    Bjos.

  4. • Martina: Venha visitar sempre!!! Sua opinião é importante.

    • Bárbara: só posso realmente agradecer suas palavras. O olhar para minha sorte, veio antes da máquina. Acho que tive o presente na vida de conhecer alguém que orientasse e ao mesmo tempo conseguisse ser uma grande amiga.

    • Rostev: Feliz também por descobrir que tem um blog, assim é mais um meio para nos comunicarmos rapaz. Posso afirmar que mesmo na época que comecei a fotografar esse tipo de comentários que você bem definiu como “receita de bolo” já existiam. Mas volto a falar que tive muita sorte, ou sei lá o que… acho que a sorte maior foi pela vicência de uma grande amizade através da fotografia. Acho que o segredo para tudo na vida é a simplicidade… nesse caso tanto de ensinar quanto de aprender.

    Voltem sempre!!!!

  5. Lamento 2 coisas: Não ter conhecido sua querida “Bebel”, e não ter aprendido da forma como você aprendeu. Agora que você explicou, entendo pq seu rendimento é tão alto. Talento aliado a um bom treinamento.

    Agradeço por ter conhecido você e por poder acompanhar seu trabalho algumas vezes de muito perto, como muitos gostariam (sou um privilegiado mesmo, e daí?… rs).

    Espero que quando o Hilton aparecer novamente por essas bandas, possamos dar um pulo naquela aldeia que ele citou. Seria muito bom fazer umas experiências por aquelas bandas em 35mm.

    Da mesma forma que vc pediu uma foto, também vou lhe pedir uma: Essa “Puxada de Rede” ta um desbunde.


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